O MUNDO DOS SURDOS



A falta de conhecimento sobre a natureza do mundo percebido pelos surdos, comum às pessoas que não se envolvem com estes, mais do que curiosidades, pode trazer questionamentos importantes e profundos, especialmente sobre o modo como a cultura é necessária para o desenvolvimento do ser humano.

Inúmeros casos mostram que aqueles que nascem surdos correm um sério risco de ficarem seriamente desamparados em relação à linguagem, perdendo o meio pelo qual entramos plenamente em contato com nossa cultura, podendo até mesmo serem equiparados a deficientes intelectuais.

Isto porque grande parte do que nos torna humanos não é apenas biológico, mas social e histórico. As nossas capacidades de linguagem, comunicação e pensamento são cultivadas de geração para geração através da cultura. Portanto, para nós, como diz o neurologista e escritor Oliver Sacks, "a cultura é tão importante quanto a natureza".

Há vários graus de surdez que vão desde aquelas pessoas que conseguem ouvir com o auxílio de aparelhos até os totalmente surdos, que não houvem sequer um som. Mas há uma distinção importante a ser feita: mais importante do que o grau da surdez é a idade em que ela ocorre. As pessoas que ficam surdas após terem adquirido a linguagem, permanecem vivendo em um mundo repleto de sons - mesmo que estes sejam fantasmagóricos.  Mas para aqueles que nascem surdos, nunca há ilusão de som, apenas uma completa ausência- algo inimaginável para qualquer um de nós ouvintes.

Essas pessoas que nascem surdas ou a adquirem na infância antes de aprender uma língua - a chamada surdez pré-linguística - vivem num mundo de absoluto e contínuo silêncio. Incapazes de ouvir seus pais ou ter qualquer outro contato social, terão sua linguagem deficiente se não forem tomadas providências desde cedo. E essa deficiência linguística pode comprometer tanto a capacidade intelectual que, sem ela, podemos parecer até mesmo deficientes intelectuais.

Por esse motivo, até o século XVIII, os natissurdos - em inglês, "deaf and dumb" - foram julgados "burros" e considerados incapazes. Foi apenas quando se propuseram a tentar se comunicar apropriadamente com essas pessoas, através da Linguagem de Sinais (esta será abordada melhor em um próximo texto), que eles se mostraram capazes de ser "educáveis" e ingressar por completo na cultura e na vida humana.

Antes de 1750, a situação das pessoas com surdez pré-linguística era desoladora, sendo eles considerados mudos por não desenvolverem a fala e, portanto, serem incapazes de se comunicar e, assim, impedidos de desenvolverem-se e aprenderem com os outros, considerados atrasados ou retardados. 

É importante ressaltar que o termo "surdo-mudo" é errôneo, pois mudo é aquele que é incapaz de produzir sons e o surdo  não o é - embora a pessoa surda possa não falar, ela pode emitir sons. A dificuldade dos surdos em falar decorre do fato de elas não poderem escutar e, portanto, não terem como imitar os sons, ou quando falam, não terem o feedback de como sua voz está saindo para aproximá-la do modo como estamos habituados.

Uma revolução para os surdos se daria quando o abade De l'Epée conheceu a língua de sinais dos surdos pobres que vagavam por Paris. O abade não tolerava a ideia de as almas dos surdos viverem e morrerem sem serem ouvidas em confissão. 

Ele prestou atenção aos surdos e dedicou-se a aprender a língua de sinais e, então, associando sinais a figuras e palavras escritas, ensinou seus pupilos a ler e, com isso, deu-lhes acesso aos conhecimentos e à cultura do mundo. A partir daí, e até a época da morte do abade, em 1789, foram criadas 21 escolas para surdos na França e na Europa.

E isso de fato foi uma revolução a se comemorar, pois libertou as capacidades dessas pessoas, permitindo-lhes crescer e pensar

Assim, os surdos sem língua podem ser considerados como retardados de um modo particularmente cruel, pois a inteligência está presente, mas condenada pela ausência de um modo para expressá-la.
Mesmo De l'Epée considerava a língua de sinais incompleta, não sendo capaz de expressar tudo o que a língua falada pode, e até hoje muitos têm essa ilusão. 

Mas a língua de sinais equipara-se à língua falada, prestando-se igualmente a tudo - seja concreto ou abstrato - com uma facilidade que às vezes é maior do que a da língua falada  (pessoas que aprenderam ambas as línguas desde a infância por vezes preferem a língua de sinais para se comunicarem). 
A linguagem de sinais fez os surdos emergirem da obscuridade e negligência e logo surgiram escritores surdos, engenheiros surdos, filósofos surdos - intelectuais surdos, antes inconcebíveis, então eram possíveis. 

Mas a história não terminou aí, pois em um momento crítico da história dos surdos, o mundo voltou-se contra o uso da língua de sinais. Existia uma contracorrente de pais de crianças surdas e professores, que pregavam que o objetivo da educação dos surdos deveria ser ensiná-los a falar.  Questionava-se o uso da língua de sinais como um instrumento de comunicação exclusivamente entre os surdos. Ensiná-los a falar e ler lábios seria o modo para integrá-los com o resto da população.

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